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México começa a sentir efeito Trump

Desistência da Ford de investir US$ 1,6 bi no país pode ser prenúncio de nova era: o 1° golpe em uma área estratégica da economia mexicana

10 jan 2017
16h38
atualizado em 11/1/2017 às 13h39
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Foi como um balde de água fria na cabeça do governo mexicano e um gostinho do que pode vir a ser um ano extremamente difícil para o México. Antes mesmo da posse oficial, marcada para 20 de janeiro, os gestos ameaçadores do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, parecem estar surtindo efeito.

Fábrica da Ford em cidade mexicana: montadora vai usar nos EUA dinheiro que investiria no México
Fábrica da Ford em cidade mexicana: montadora vai usar nos EUA dinheiro que investiria no México
Foto: Deutsche Welle

A montadora americana Ford anunciou na semana passada o cancelamento de investimentos já planejados no México, no valor de 1,6 bilhão de dólares, e a decisão de investir parte do valor (700 milhões) na produção de carros elétricos em Flat Rock, no estado americano do Michigan.

A Ford havia anunciado seus planos de investimento no México, agora revogados, em abril passado - em meio à campanha eleitoral americana. O anúncio soou como um desafio para os planos protecionistas de Trump, que atacou de maneira incisiva as montadoras americanas durante a campanha. Para ele, era "vergonhoso" que companhias tradicionais movessem sua produção e postos de trabalho para o exterior.

A ideia da Ford era construir uma nova fábrica em San Luís, por 1,6 bilhão de dólares e que ficaria pronta em 2020. A partir daí carros compactos como o Ford Fiesta, Ford C-Max e o Ford Focus seriam produzidos em suas linhas de montagem, criando 2.800 empregos. O Ford Focus vai continuar a ser fabricado no México, mas na já existente fábrica de Hermosillo, no estado de Sonora. Atualmente, o Focus ainda continua a ser montado em Wayne, Michigan. No total, a Ford opera duas instalações de montagem e uma fábrica de motores no México.

Impacto no setor

O presidente da Ford, Mark Fields, disse em uma coletiva de imprensa que a desistência dos planos em San Luís ocorreu principalmente por causa do "declínio dramático da demanda por carros compactos na América do Norte".

Não houve, como ele destacou, um acerto com Trump. No entanto, Fileds disse esperar por condições mais favoráveis para negócios nos EUA sob Trump, ao mesmo tempo em que durante uma entrevista à rede CNN tentava empacotar a decisão da sua empresa como "um voto de confiança" no novo presidente.

No México, por outro lado, o governo Enrique Peña Nieto lamentou a desistência da Ford. A companhia americana deve agora pagar de volta os incentivos fiscais já coletados, segundo uma declaração do Ministério para Assuntos Econômicos mexicano.

"Os empregos criados no México ajudaram a preservar empregos no setor produtivo americano, do contrário eles teriam sido absorvidos por competidores asiáticos", afirmou.

O anúncio da Ford chegou em um momento desfavorável para o governo mexicano, que enfrenta uma série de protestos pelo país por causa do aumento dos preços de gás e gasolina no final do ano.

A desistência da Ford é também o primeiro golpe em uma área estratégica da economia mexicana. O setor automotivo representa uma das fatias mais importantes da economia local. Emprega 900 mil pessoas diretamente e é responsável por 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB).

Indústria-chave

Uma porção significativa da produção de carros nos EUA é terceirizada no México - e um terço das importações de automóveis dos EUA vem do México. O país também é um polo de produção importante para montadoras alemãs como Volkswagen, BMW, Audi e Daimler.

A Audi e a Daimler (em conjunto com a Nissan) estão construindo novas fábricas no México. De acordo com a empresa de consultoria Roland Berger, montadoras estrangeiras anunciaram investimentos que devem chegar a 17 bilhões de dólares até 2020. Enquanto isso, o México alcançou a posição de sétimo maior fabricante de automóveis e quarto maior exportador mundial de carros.

Tudo isso ocorreu graças ao Nafta, o acordo de livre-comércio assinado em 1994. Desde então, muitas montadoras e outros fabricantes se mudaram para o sul do rio Bravo, onde passaram a produzir para o mercado americano. As economias dos EUA e do México são bastante entrelaçadas.

Os EUA são agora os parceiros comerciais e os investidores mais importantes do México. O setor exportador mexicano, por sua vez, direciona três quartos da sua produção para o mercado americano. Com suas ameaças de elevar barreiras alfandegárias, Trump está essencialmente mirando no Nafta.

Fuga de capitais

A desistência da Ford pode ser o começo de uma fuga de capital estrangeiros do México e pressão adicional sobre a já enfraquecida economia mexicana.

"O perigo é que outras companhias façam o mesmo", disse Gabriela Siller, analista financeira do banco Base ao jornal espanhol El País. "Não acreditamos que isso vai permanecer um caso isolado." De fato, antes mesmo da Ford, a fabricante de ares-condicionados Carrier já havia anunciado que os planos de transferência de parte da sua produção do Estado americano de Indiana para o México seriam abandonados.

O fim ou uma revisão do Nafta também pode causar impactos na indústria automotiva mundial -já que o México é extremamente atraente por causa da sua localização junto ao mercado americano. Isso somado ao fato de que conta com empregados qualificados de baixo custo e fornecedores experientes.

Se Trump resolver executar suas ameaças, muitos mexicanos poderão perder seus empregos. Uma crise econômica tem potencial para se tornar uma crise migratória. Os gestos de Trump podem acabar se voltando contra ele.

Deutsche Welle Deutsche Welle

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