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Crise de abastecimento desestabiliza Venezuela na Era Maduro

23 mai 2013
07h06
atualizado às 07h06
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Em sua primeira visita ao Brasil como presidente venezuelano, no começo de maio, Nicolás Maduro pediu a ajuda da presidente Dilma Rousseff. Com uma enorme crise de abastecimento que ameaça a estabilidade de seu governo, a taxa de escassez de produtos na Venezuela foi de 21,3%, no mês passado. A causa desta crise é a política de tabelamento de preços praticada para tentar conter a inflação no país, a maior da América Latina.

Popularidade de Chávez amenizava efeitos da crise, o mesmo não acontece com Maduro
Popularidade de Chávez amenizava efeitos da crise, o mesmo não acontece com Maduro
Foto: Getty Images

Essa política de tabelamento de preços não tem sido eficiente. Dados divulgados pelo Banco Central da Venezuela em conjunto com o Instituto Nacional de Estatísticas do país indicam que a inflação ficou em 29,4% em abril, no acumulado de 12 meses. Segundo os dados oficiais, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) subiu 4,3% no último mês, a maior alta mensal em três anos. No primeiro quadrimestre de 2013, o INPC subiu 12,5%, bastante superior à taxa de 4,4%, registrada no mesmo período de 2012.

De acordo com a pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV) Lia Valls, quando a política de tabelamento de preços é aplicada a uma economia tão pouco diversificada quanto a venezuelana, em que já há pouca oferta, essa oferta diminui ainda mais, o que encarece os produtos, gerando mais tabelamento. É como uma bola de neve, que faz com que o país importe demais, levando a uma crise de abastecimento em que os produtos tabelados são escassos devido à pouca oferta e muita procura, enquanto os outros passam a ter preços altíssimos.

Segundo o professor do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEARP-USP) Márcio Bobik Braga, a ligação entre a política de tabelamento de preços e a crise de abastecimento está no fato de que desconsidera os custos reais dos produtos. O desequilíbrio entre estes dois valores causa um desestímulo à produção, levando não só à crise de abastecimento, mas também à fraca competitividade dos produtos venezuelanos.

Outro problema enfrentado pela Venezuela é uma crise institucional. Conforme especialistas, graças ao carisma e à popularidade do ex-presidente Hugo Chávez, a situação era mantida sob controle. Com a morte de Chávez, o país mergulhou em um período de instabilidade política, que seu sucessor, Nicolás Maduro, está com dificuldades para contornar.

Para Valls, apesar da crise em que se encontra o país, as políticas adotadas pelo governo venezuelano nos últimos anos não foram totalmente equivocadas, visto que houve uma significativa transferência de renda, com benefício social para a população. No entanto, as intenções expressas por Chávez, durante seu governo, de diversificar a economia, não foram adiante, e a Venezuela ainda é muito dependente de seu petróleo.

Parceria com o Brasil

Na última década, as exportações brasileiras para a Venezuela aumentaram 533%. Esse número, aliado ao fraco desempenho do país vizinho no campo das exportações, fez com que a balança comercial entre os dois países tenha se encerrado com superávit de US$ 4 bilhões para o Brasil no ano passado. No entanto, apesar de ser um importante parceiro comercial, o país recebe apenas 2% das exportações brasileiras - principalmente bovinos vivos, carne bovina e açúcar.

Para Braga, apesar de o governo brasileiro ter garantido apoio a Maduro para superar os problemas, a crise venezuelana não afeta a economia brasileira. Segundo ele, as relações políticas entre os dois países podem ser próximas, mas é preciso separar política de economia, pois as relações comerciais se dão no setor privado. “Caso houvesse um colapso na economia venezuelana, o país pararia. Em relação ao Brasil, a exportação e a importação de produtos deixaria de acontecer, pois os empresários precisam de segurança para investir”, explica. Passado o impacto inicial, o petróleo importado dos venezuelanos passaria a vir de outros fornecedores, e os setores da economia brasileira que mais exportam para a Venezuela buscariam outros mercados, sem grandes dificuldades.

De acordo com os economistas, a instabilidade venezuelana prejudica a integração da América Latina e é ruim para a imagem do Mercosul no cenário internacional. Segundo Valls, a imagem de estabilidade do bloco econômico pode “se manchar” com os problemas venezuelanos, deixando os investidores internacionais receosos. Braga lembra ainda que a Argentina também atravessa um período de crise institucional. Para o professor da FEARP-USP, diante deste cenário, é fundamental que o Brasil mantenha sua estabilidade, sem se afetar pelas crises das nações vizinhas.

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra
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