inclusão de arquivo javascript

 

 
 

Economia » Notícias

 Reforma pode 'revolucionar' microcrédito privado na China

01 de maio de 2012 • 16h14 •  atualizado 16h16

Centenas de milhares de pequenas empresas chinesas são financiadas por crédito privado, muitas vezes obtido de forma ilícita. Como parte desses empréstimos não se sustentam, o governo da China anunciou um projeto-piloto de novas empresas de financiamento, de microcrédito e capital privado. Será que este pode ser o próximo passo na revolução econômica chinesa?

O financiamento privado - empréstimos que operam fora do sistema bancário estatal - é algo comum na China. Só a cidade de Wenzhou, na província de Zheijang, tem mais de 400 mil pequenas empresas de manufatura, e muitas delas dependeram de capital particular porque os bancos estatais chineses não costumam emprestar dinheiro para empreendimentos iniciantes. Muitos dos receptores de empréstimos também recorrem a investidores privados em busca de taxas melhores do que as cobradas pelo sistema estatal.

Debaixo dos panos
Zhou de Wen é o líder de uma associação local de pequenas e médias empresas. Ele contou ao programa In Business, da BBC Radio 4, que o total de empréstimos privados em Wenzhou já chegou a cerca de 120 bilhões de yuans (ou R$ 35,8 bilhões). Na província de Zheijang, alcança 1,5 trilhões de yuans, quase a metade do total dos empréstimos privados do país.

O problema com esses empréstimos é que muitos deles são feitos debaixo dos panos, de forma não oficial. De qualquer forma, a linha entre certo e errado é imprecisa. O governo faz vista grossa para a maior parte do mercado privado de crédito, desde que a taxa de juros cobrada pelos credores não passe do quádruplo da taxa cobrada pelos bancos estatais. Muitos empréstimos, porém, são feito a taxas muito mais altas.

Em Wenzhou, a taxa estatal oficial é de 0,6% ao mês. Já credores privados cobram entre 3% e 6%, para empréstimos que são em geral de até seis meses. A prática ganhou as manchetes da imprensa chinesa depois que uma empresária de 31 anos, Wu Ying, foi condenada pela Justiça local por "trapaça financeira" e sentenciada à morte. Há alguns dias, a Suprema Corte anulou a sentença e ordenou um novo julgamento. Até então, muitos viam Wu Ying como uma das heroínas do novo capitalismo - uma ex-cabeleireira que se tornou uma das mulheres mais ricas do país. Por isso, a sentença inicial - considerada dura para muitos - foi motivo de grande debate.

Prática comum
Longe de ser um crime incomum, a prática de empréstimos privados é a regra em Zheijang, afirma He Gang, da revista econômica Caijing. "A indústria estatal não é muito desenvolvida", diz ele. "Então, muitas pessoas emprestam dinheiro dentro de acordos privados."

Para muitos, esse tipo de empréstimo só trazia benefícios: dava aos empreendedores acesso ao capital, que por sua vez financiava novos negócios e garantia uma parcela do boom econômico do país. De seu lado, os investidores recebiam uma taxa de retorno melhor por seu dinheiro.

Mas, com a deterioração do cenário econômico global e seus efeitos na China, o sistema, antes bem engrenado, começou a apresentar falhas. Muitas fábricas começaram a não conseguir pagar seus credores. Alguns fugiram, outros cometeram suicídio, deixando os credores com poucas perspectivas de rever seu dinheiro. E muitos desses credores são pessoas comuns, que usavam suas economias para emprestar. Muitos dos acordos eram baseados apenas em um aperto de mãos.

A BBC conversou com um investidor privado que disse ter perdido o equivalente a R$ 200 milhões, emprestados a diversos empreendedores imobiliários. Sua ruína veio quando o governo chinês, para conter bolhas, impôs limites ao crescente mercado imobiliário do país, limitando o número de casas que podem estar sob o nome de um mesmo dono. Com isso, muitos empreendimentos novos ficaram sem compradores.

Reformulação
Em meio às perdas, o governo anunciou planos de reformular esse setor da economia, desenvolvendo um projeto-piloto para criar instituições financeiras novas e menores. O plano começará em Wenzhou e incluirá a criação de bancos de crédito rurais, empresas de microcrédito e, principalmente, um fundo de private equity liderado pelo governo local, para investir em companhias privadas. Trata-se de algo sem precedentes na China e pode servir de estopim para uma nova fase em seu desenvolvimento econômico.

O projeto ocorre pouco depois de o primeiro-ministro Wen Jiabao afirmar, na rádio estatal, que o monopólio dos bancos estatais precisa ser extinto no país. E o governo não é o único programando mudanças em Wenzhou. Desde maio de 2010, o jovem advogado Yen Yi Pan mantém um website que serve de ponte entre quem quer emprestar e quem quer tomar empréstimos. "Oferecemos ajuda legal, fazemos contratos, acertamos taxas de juros e provemos algum tipo de garantia", diz Yen. "Dessa forma, ajudamos a regular o mercado."

Zhou de Wen, por sua vez, defende a criação de leis para reforçar essa regulamentação. Ele sustenta que o sistema financeiro deve ser alterado, argumentando que o monopólio de grandes bancos estatais força o crescimento do setor financeiro privado. "Temos um sistema financeiro irracional, incapaz de corresponder às necessidades do desenvolvimento do país", afirma. "Por isso, você vê muitas crises entre as pequenas e médias empresas. Se o sistema não mudar, a China não poderá ir adiante."

BBC Brasil
Todos os direitos de reprodução e representação reservados.
 
 
 
 
 
 
 
Disculpe, seu navegador não aceita frames<a href="www.terra.com.br"> terra </a>