Brasil 11:39 HS - 24/11/2009  NotíciasAções

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Sexta, 6 de novembro de 2009, 17h29

Fonte: Reuters News

Energia

Especialistas temem que pré-sal suje matriz energética

As grandes descobertas de petróleo do pré-sal brasileiro, apesar de serem uma reserva de riqueza para o País, ameaçam reduzir a importância de fontes limpas de energia, entre elas os biocombustíveis, disseram especialistas.

Uma eventual grande oferta de produtos derivados do petróleo no mercado brasileiro quando os grandes projetos de produção e refino de petróleo estiverem implantados poderia reduzir a competitividade de alternativas energéticas como etanol, biodiesel e a geração por biomassa.

Essa possibilidade alimenta o debate sobre uma eventual mudança na matriz energética brasileira, com aumento da fatia de não renováveis.

Membros do governo já se manifestaram contrários a políticas adotadas no passado por alguns países petroleiros que se mostraram negativas para a economia, como a oferta de gasolina barata e o excessivo foco em apenas um setor - o de petróleo -, negligenciando outras áreas. Mas condições do mercado podem alterar essa posição.

"Eu acho que tem que tomar cuidado para que o pré-sal não faça com que a matriz energética brasileira tome uma rota suja", disse Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura.

"O País não pode sucumbir à tentação populista de subsidiar os produtos derivados e levar a um aumento do uso de petróleo. Tem que ter cuidado para não invibilizar coisas como o etanol, que é uma conquista do País", acrescentou.

Da oferta total de energia no Brasil em 2008, 36% foi renovável e 64% não renovável, de acordo com estatísticas da British Petroleum.

Em comparação, no grupo de 30 países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), formado por países industrialmente avançados, 94,8% da oferta total de energia no ano passado foi não renovável e apenas 5,2% renovável.

O etanol ultrapassou no ano passado a gasolina como combustível mais consumido por veículos leves no Brasil e hidrelétricas geram quase 80% da eletricidade.

Usinas térmicas, movidas a combustíveis fósseis, têm sido acionadas ocasionalmente, quando o nível dos reservatórios caem.

Uma grande produção de petróleo das novas áreas e de derivados a partir das refinarias projetadas para serem construídas ainda levará anos, mas o governo e a Petrobras possuem um planejamento ambicioso para desenvolver o setor, o que preocupa defensores de tecnologias limpas.

"O Brasil não pode abandonar os esforços em energia limpa, seria errado concentrar recursos todos no pré-sal", afirmou Luiz Pingueli Rosa, diretor do Coppe, núcleo da Universidade do Rio de Janeiro que é referência em estudos na área de engenharia e energia no Brasil.

Governo nega
Apesar da preocupação de especialistas do setor de energia com o possível crescimento na matriz brasileira de matérias-primas fósseis, grandes emissores na atmosfera de gases do efeito estufa, representantes do governo e da Petrobras têm negado que vá acontecer.

"O Brasil vai continuar investindo em fontes renováveis de energia apesar dos esforços no desenvolvimento do pré-sal", afirmou Almir Barbassa, diretor financeiro da Petrobras, em evento recente sobre a nova fronteira petrolífera.

"Não há competição com o etanol e eu não acho que o pré-sal vai sujar a matriz energética", acrescentou.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse há alguns dias em evento sobre biodiesel em Brasília que o Brasil não tem planos de abandonar a "posição de vanguarda" em áreas limpas como a dos biocombustíveis.

"Nossa próxima meta é desenvolver biocombustíveis de segunda e terceira geração. Nós vamos manter nossa matriz energética limpa."

Esse debate ganha combustível em um momento em que o Brasil sofre pressão na comunidade internacional sobre a questão da mudança climática.

Apesar de uma matriz relativamente limpa, o País emite milhões de toneladas de carbono anualmente com as queimadas em áreas de florestas.

Áreas de vegetação intensa funcionam como sumidouros de carbono, ou seja, sequestram da atmosfera o CO2, principal gás formador do efeito estufa. Mas quando as matas são derrubadas, o carbono sequestrado é liberado.

Marcos Jank, presidente da Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), além da defesa do etanol, também cobra empenho no desenvolvimento dos projetos de cogeração de energia por meio da queima do bagaço de cana.

"Nós temos duas Itaipus nos campos", afirma, sobre o potencial de geração de energia dos restos dos 600 milhões de t de cana produzidos anualmente no Brasil.

"Seria um retrocesso para o Brasil, que tem uma matriz renovável, imaginar que vai para uma matriz baseada no petróleo. Acho que isso não está na cabeça de ninguém sério", acrescentou.

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