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Segunda, 6 de agosto de 2007, 13h16

Fonte: Redação Terra

Empresas

EUA: milionários não se sentem ricos e querem mais

Gary Rivlin
New York Times

Sob praticamente qualquer definição - exceto a dele e a de seus vizinhos aqui no Vale do Silício -, Hal Steger conquistou o sucesso. Steger, 51 anos, que se descreve como "geek" (nerd interessado em Internet e computadores), tem mais de US$ 2 milhões em patrimônio líquido. A casa de US$ 1,3 milhão em que vive com a mulher em uma encosta com vista para o Pacífico está integralmente paga. O patrimônio total de US$ 3,5 milhões de que o casal desfruta o coloca facilmente entre os 2% mais ricos dos norte-americanos.

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Mas Steger continua a trabalhar naquilo que um colega define como "as minas de sal do Vale do Silício", em sua função de diretor de marketing de uma empresa iniciante de tecnologia, e ainda está à procura de seu grande sucesso. Quase todas as manhãs, ele chega ao escritório pelas 7h. Tipicamente trabalha 12 horas por dia e mesmo nos finais de semana costuma acrescentar cerca de 10 horas à sua jornada semanal de trabalho.

"Sei que as pessoas que olham de fora ficam curiosas para saber por que alguém como eu trabalha tanto", diz Steger. "Mas um patrimônio de alguns milhões não vale mais o que valia no passado. Talvez nos anos 70 ter alguns milhões significasse uma vida de luxo como a do Riquinho, vivendo em uma mansão com um mordomo. Mas isso certamente mudou".

O Vale do Silício está repleto de pessoas que poderíamos chamar de milionários trabalhadores - gente que está sempre na atividade, como Steger, e muitas vezes até se surpreende por ter de continuar trabalhando tanto depois de terem encontrado lugar entre os afortunados. As vidas deles estão repletas de oportunidades, e eles em geral apreciam seus empregos. Estão protegidos, de modo geral, contra as ansiedades e abalos que afetam a maioria das pessoas que vivem de salário a salário.

Mas muitos dos membros mais realizados e ambiciosos da elite digital não se consideram especialmente afortunados, especialmente porque vivem cercados de pessoas mais ricas - e freqüentemente muito mais ricas.

Quando um presidente de empresa ganha salário de milhões de dólares ao ano e um dirigente de fundo de hedge pode faturar US$ 1 bilhão anualmente, as pessoas com patrimônio de alguns milhões de dólares muitas vezes vêem sua riqueza como modesta, um reflexo de seu status modesto na nova Era Dourada, em que centenas de pessoas acumularam fortunas muito mais vastas.

"Todo mundo aqui está de olho naqueles que têm mais", diz Gary Kremen, 43 anos, fundador do site Match.com, um popular serviço online de encontros. "É como em Wall Street, onde executivos financeiros que ganham US$ 7 milhões ao ano gostariam de saber o que eles têm de especial, quando existem tantos outros que têm fortunas de centenas de milhões de dólares".

Kremen estima seu patrimônio líquido em cerca de US$ 10 milhões. Isso o coloca firmemente entre o 0,5% de norte-americanos mais ricos, de acordo com dados sobre riqueza nacional compilados pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). No entanto, ele não seria incluído nas fileiras das pessoas mais ricas de cidades como Palo Alto, Menlo Park e Atherton. Assim, ele continua trabalhando entre 60 e 80 horas por semana, diz, porque não acredita que disponha de dinheiro suficiente para relaxar.

"Com US$ 10 milhões, aqui, você não é ninguém", diz Kremen em tom de seriedade, enquanto toma uma taça de pinot noir em um sofisticado bar de vinho em Menlo Park.

Nem todos os milionários do Vale do Silício compartilham dessa perspectiva, evidentemente.

Celeste Baranski, 49 anos, uma engenheira com patrimônio de cerca de US$ 5 milhões que vive com o marido em Menlo Park, já não precisa se preocupar em juntar dinheiro para a faculdade dos dois filhos. E há muito tempo desistiu de se preocupar com contas sobre o saldo bancário. Quando o esforço causado por muitos dias de 18 horas de trabalho à frente de um departamento de engenharia com 1,2 mil subordinados causou esgotamento, ela simplesmente pediu demissão e tirou um ano de férias.

Mas, como outros dos milionários trabalhadores do Vale do Silício, ela ainda assim se sente ansiosa quanto ao seu futuro financeiro. Baranski, cujo patrimônio por um breve período atingiu os US$ 200 milhões em 2000, mas se reduziu a apenas US$ 1 milhão depois do colapso da bolha da Internet, voltou a trabalhar em março.

Com dois sócios, ela criou uma empresa de software chamada Vitamin D, e já está conformada com as noites em claro e as outras formas de desgaste que terá de enfrentar. "Pergunto-me a toda hora por que faço isso", ela diz.

Trabalhar em uma empresa iniciante sempre foi revigorante, afirma. Mas ela o marido, 62 anos, que também continua trabalhando, concluíram que Baranski deveria continuar na labuta, se os dois planejam continuar desfrutando da vida a que se acostumaram.

O casal recentemente fechou um acordo, e Baranski continuará a trabalhar por pelo menos mais cinco anos, a bem das finanças.

"As pessoas por aqui não se sentem seguras se elas têm US$ 2 milhões ou US$ 3 milhões", disse David Hettig, consultor patrimonial de Menlo Park, que assessora os ricos do Vale do Silício há duas décadas.

Muitos dos milionários mais modestos se sentem desconfortáveis, ou até culpados, quanto ao patrimônio adquirido. O talento desempenhou um papel no seu sucesso, mas estar no lugar certo e na hora certa também teve grande influência.

"Eles reconhecem que, caso tivessem entrado em um escritório diferente em um determinado dia", diz Marilyn Holland, psicóloga de Menlo Park que aconselha a elite do Vale do Silício há 25 anos, "poderiam ter levado vidas muito diferentes".

Trata-se de uma diferença essencial entre esses milionários trabalhadores e os magnatas mais ricos do país, que tendem a se ver como pilares de suas comunidades, dotados de patrimônios de centenas de milhões ou até mesmo de bilhões de dólares.

"Boa parte do dinheiro que existe aqui é dinheiro acidental", diz Bruce Karsh, 51 anos, engenheiro que estima seu patrimônio entre US$ 2 milhões e US$ 4 milhões. "As pessoas não planejavam se tornar quaquilionárias".

The New York Times
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Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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