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Domingo, 26 de janeiro de 2003, 12h02

Fonte: INVERTIA

Fórum Econômico Mundial

Lula defende em Davos fundo internacional contra a pobreza

Atualizada às 15h24
Com informações da Agência Brasil e JB Online, AFP e Reuters Investor

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu neste domingo no Fórum Econômico Social em Davos que os países industrializados construam um novo fundo internacional para combater a pobreza no mundo. "Proponho a formação de um fundo internacional para lutar contra a miséria, a fome e a pobreza nos países do Terceiro Mundo", afirmou ele em um discurso fortemente aplaudido pela platéia do Fórum.

º Veja fotos de Lula em Davos

Repetindo um mantra da sua campanha eleitoral no Brasil, Lula lembrou aos participantes do Fórum que "é longo o caminho para a construção de uma sociedade justa, e a fome não pode esperar. Meu maior desejo é que a esperança que venceu o medo no meu país faça o mesmo no mundo".

Ele disse que o fundo poderia ser criado pelo G-7 (grupo das sete nações mais industrializadas do mundo) e apoiado por investidores internacionais. "Muitas vezes a pobreza, a fome e a miséria são o gatilho para o fanatismo e a intolerância", declarou Lula. "Nós precisamos urgentemente nos unir ao redor de um mundo feito de paz e de combate à fome, e vocês podem estar certos de que o Brasil fará sua parte no trabalho." Lula fez do programa "Fome Zero" uma prioridade de seu governo de centro-esquerda. O presidente garantiu que o Brasil "fará a sua parte".

Em seu primeiro grande discurso diante de líderes políticos e empresariais mundiais, ele não detalhou sua proposta. Lula começou seu discurso no 33º Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), um dos mais esperados, defendendo uma nova ordem mundial como alternativa para o crescimento econômico. Lula reafirmou a necessidade do combate à fome e lembrou que o governo brasileiro terá como prioridade o combate à pobreza. "Quero que os brasileiros possam todo o dia tomar café, almoçar e jantar", disse para uma platéia formada por empresários, autoridades políticas, pesquisadores e jornalistas.

Em seu discurso de pouco menos de 20 minutos, Lula aproveitou ainda para reforçar a necessidade do fim do protecionismo dos países desenvolvidos. "De nada adianta nosso esforço exportador se os países desenvolvidos permanecerem com o protecionismo", ressaltou. Lula afirmou, ainda, a necessidade do combate ao terrorismo e à corrupção e defendeu as ações de busca pela paz. "A construção de uma nova ordem mundial não é apenas sinal de boa vontade, mas de inteligência", disse.

Em um discurso fervoroso, Lula discorreu várias vezes sobre a divisão do mundo entre ricos e pobres e sobre a necessidade de lutar por um acordo justo para os países em desenvolvimento, especialmente com relação ao comércio e à dívida. "Mais de 10 anos depois da queda do Muro de Berlim, nós ainda vemos outros muros que separam aqueles que comem daqueles que têm fome; aqueles que têm empregos dos que estão desempregados; aqueles que vivem com dignidade daqueles que vivem nas ruas ou em favelas", disse. "O Brasil tem que sair desse círculo vicioso de obter novos empréstimos para pagar empréstimos anteriores... Nós queremos um livre comércio, mas um livre comércio caracterizado pela reciprocidade."

Todos os esforços do Brasil em expandir suas exportações serão inúteis, ele acrescentou, se outros praticarem protecionismo enquanto falam em livre comércio da boca pra fora.

Lula disse que o Brasil quer que o livre comércio seja baseado na reciprocidade e pediu que os países deixem de praticar o protecionismo. Na opinião de Lula, existe a necessidade de mais disciplina no mercado financeiro. "É preciso mudar a realidade de capitais que se deslocam pelo mundo ao sabor de boatos e sem fundamentos na realidade", disse Lula. "De nada nos valerá o esforço exportador que queremos impulsionar, se os países ricos continuaram defendendo o livre comércio e praticando o protecionismo", acrescentou.

Ele prometeu mostrar a mesma força na barganha com os países ricos que usava em seus anos de negociações com empregadores quando era um trabalhador da indústria e líder de sindicato. "Nós queremos respeitar o direito de todos, de todo mundo. Mas eu também quero que os outros respeitem os direitos do Brasil. Nós não queremos ser tratados como cidadãos de segunda classe. Nós queremos ser tratados em termos igualitários."

O Brasil, disse Lula, estava "combatendo a corrupção com bastante força" e estava aberto para o investimento externo. "O Brasil não pode continuar sendo um gigante adormecido. E se Deus quiser, nós vamos despertar esse gigante", falou.

Lula, um crítico frequente da globalização, fez um dos discursos mais elétricos no fórum de Davos até agora. Ele veio direto do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, que é denominado por alguns como o fórum "anti-Davos". O discurso do presidente brasileiro na Suíça foi recebido com aplausos. "Eu gostaria de convidar todos os que estão nesse encontro, nesta montanha mágica de Davos, para olhar para o mundo com novos olhos", disse Lula. "É absolutamente necessário construir uma ordem econômica mundial que atenda a demanda de bilhões de pessoas que vivem à margem."

Lula destacou que o Brasil trabalha para aprofundar a democracia política e promover ativamente os Direitos Humanos. "Mais de 45 milhões de brasileiros vivem a baixo do nível de pobreza, onde o ponto mais dramático é a fome. Por isso, a nossa prioridade é o combate à fome. Um compromisso não só do governo, mas da sociedade".

O presidente pediu ainda que a comunidade internacional impeça a evasão de recursos para paraísos fiscais, e que se tenha mais disciplina no combate à lavagem de dinheiro.

Lula disse ainda que o Brasil "se sentia no direito e no dever" de dirigir a Davos um "um apelo ao bom senso", pedindo que as descobertas científicas sejam universalizadas para que seus benefícios possam ser sentidos por todas as nações.

Ver o mundo de outra maneira

Lula falou do programa Fome Zero e convidou os participantes no Fórum a "ver o mundo de outra maneira e não apresentar barreiras aos países em desenvolvimento". Em seu discurso, o presidente brasileiro também criticou a especulação do mercado financeiro globalizado. Lula foi bastante aplaudido no final de suas declarações. "Precisamos urgentemente nos unirmos em torno de um pacto mundial da paz e contra a fome, e que fique acertado que o Brasil fará sua parte", declarou o presidente ao concluir seu discurso, provocando aplausos do público.

Os participantes do Fórum Social Mundial de Porto Alegre assistiram ao pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dois telões instalados na universidade da PUC. Neste local o discurso causou uma euforia de aplausos da plateia que se concentra em torno dos telões.

Veja também:
º Leia a íntegra do discurso de Lula em Davos
º Íntegra da entrevista concedida por Lula em Davos
º George Soros elogia Lula e adverte que mercados estão apreensivos com Iraque
º Sindicatos globais apóiam agenda de desenvolvimento proposta por Lula

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