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Segunda, 26 de agosto de 2002, 14h50

Fonte: Investnews

Crise Argentina

Escambo espalha-se pela Argentina e torna-se mais sofisticado

Mercado de troca sofistica-se com vales anti-fraude e permite que os excluídos consumam

Na Argentina dos últimos anos, marcada por uma fúria empobrecedora incomum, a idéia de um sistema econômico paralelo tem conseguido o prodígio de superar a utopia e inserir no mercado de consumo mais de um milhão de pessoas da periferia da economia formal. Desde 1995, o escambo sistematizado em entidades civis disseminou-se pelo país e tornou-se a principal forma de subsistência para multidões de argentinos, a ponto de envolver hoje, segundo os organizadores, um total estimado em 6 milhões de pessoas - um em cada seis habitantes do país, contando-se os participantes diretos das feiras de troca e seus dependentes. Uma dimensão tão surpreendente que já impôs ao modelo alternativo alguns males do capitalismo a que ele se pretendia imune, como a falsificação de dinheiro e a inflação.

Os problemas, no entanto, estão servindo para sofisticar o mecanismo que, em quinze dias, fará circular um novo padrão de cédula, agora com impressão de segurança em papel importado do Brasil. Além disso, a "quase-moeda" com a qual os "trocadores" fazem seus negócios nas cerca de 8 mil feiras organizadas pelo país será submetida a um processo denominado "oxidação", segundo o qual perderá 12% de seu valor ao ano, para motivar a circulação intensiva do meio de pagamento e evitar a concentração e a geração de "milionários" dentro dos clubes de troca.

Embora engordada pela pobreza, a idéia inicial partiu de um grupo de 30 pessoas de classe média e média alta, que se reunia para filosofar sobre ecologia e modos de produção para a auto-suficiência doméstica. "Desde os anos 80 me envolvi com modelos ecológicos familiares auto-sustentáveis, a produção básica de baixo impacto suficiente para subsistência. E a partir de um grupo de amigos pensamos estender a idéia à economia, criar um pequeno mercado sem dinheiro que oferecesse oportunidade de consumo a ?desamparados econômicos?, gente que não tem acesso a capital e publicidade para competir num sistema global, mas capaz de produzir o suficiente para suas necessidades", explica Carlos De Sanzo, psicólogo de 49 anos, que em maio de 1995 inaugurou o primeiro "trueque" do país na garagem de sua casa, na Zona Sul de Buenos Aires.

A deflagração da idéia coincide com o início da decadência da Argentina da livre conversibilidade peso/dólar, inaugurada em 1991, mas que, a partir do segundo mandato do peronista Carlos Menem, passou a dar sinais de debilidade, sobretudo por gerar grandes déficits fiscais que acabariam por romper o modelo cambial e mergulhar o país em sua pior crise.

Produzir para consumir

O modelo argentino de troca parte de fórmulas já experimentadas em países da Europa e nos Estados Unidos, mas em nenhum lugar obteve tamanha proliferação. Aqui, tem como plataforma a proibição do dinheiro formal e faz uso de vales de circulação interna para facilitar os negócios. Embora se trate de uma espécie de escambo, praticamente não se faz a troca de produto por produto dentro dos denominados "nodos" (núcleos), que são os espaços físicos de negócios.

Ao ingressar no clube, o "trocador" apresenta ao coordenador o produto ou serviço que tem a negociar. A partir daí, recebe certa quantia de créditos. A principal das redes de troca (a Red Global de Trueque), com 1 milhão de participantes, coordenada por De Sanzo, entrega de entrada 50 "créditos", em torno de 25 pesos (US$ 7,50). Caso o associado desista de participar, deve devolver os créditos iniciais. Fica estabelecida, assim, a lógica dessas feiras, em que é preciso produzir para consumir, o que, em tese, torna inflacionária a utilização de créditos desvinculados da produção.

No início deste ano, já no auge da deterioração social argentina, feiras de troca como a de Chacarita, bairro na Zona Oeste de Buenos Aires, chegavam a abrigar mais de 3 mil pessoas nas tardes de sábado. Dali, uma dona de casa, por exemplo, podia transformar empanadas e pastéis feitos domesticamente em créditos com os quais tinha acesso a produtos de praticamente toda a cesta básica de alimentos, higiene e limpeza.

"Ingressei no sistema porque tinha um encalhe de livros de minha pequena editora e achei que podia fazer valer algo aqui", conta Enrique Tesitor, dono e funcionário único da micro Editora Menphis, que publica livros como o popular Martín Fierro, história em verso do "gaucho" argentino. Em troca, Enrique tem levado para casa principalmente ferramentas e artefatos elétricos, como arandelas, além de comida elaborada. "O que mais atrai as pessoas é a possibilidade de levar alimentos para a família, e aqui se pode comprar produtos artesanais de excelente qualidade", resume Tesitor.

Falsificação e inflação

As quatro redes de troca têm hoje um total de 1,5 milhão de associados, o que permite, segundo De Sanzo, supor um total de 6 milhões de pessoas envolvidas direta ou indiretamente com os núcleos. O gigantesco sucesso acabou por propiciar a inserção despercebida de fraudadores, descobertos no início deste ano. "Calculamos que falsificaram cerca de 300 mil créditos, porque obtiveram o mesmo papel que usávamos e esses vales continuam circulando, porque é impossível identificá-los", conta De Sanzo. O excesso de circulante acabou por provocar inflação dentro do mercado. Descobertos, 15 falsificadores acabaram presos.

O escândalo, que gerou desconfiança entre os participantes, mais a falta de dinheiro mesmo para pequenas produções domésticas, enfraqueceu o movimento das feiras nos três últimos meses. "Acreditamos que com os novos vales que vamos lançar nas próximas semanas as pessoas recuperem a confiança e voltem", estima De Sanzo. Sábado passado, o núcleo de Chacarita, um dos mais ativos até o início do ano, ocupava apenas dois dos quatro andares a que tem direito. Sobre as bancadas, sobravam roupas e artigos usados, e profissionais liberais como dentistas, eletricistas e oculistas ofereciam seus serviços.

Os créditos da Red Global - entidade civil sem fins lucrativos, que vive da taxa de 2 pesos cobrada dos novos sócios e da edição de livros sobre o trabalho desenvolvido - podem circular em todas as oito mil feiras de troca pelo país.

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