0

Amorim: País pode pagar maior cota ao FMI para ampliar poder

27 fev 2009
19h41

Lúcia Jardim
Direto de Paris
Especial para o Terra

O ministro das relações Exteriores, Celso Amorim, disse que o Brasil cogita a hipótese de pagar uma cota maior ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para ampliar o seu poder de decisão na instituição. A declaração foi dada em uma coletiva de imprensa realizada na embaixada do Brasil em Paris, logo após uma reunião que teve com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, nesta sexta-feira.

"Outra (questão importante do G20) é a mudança na estrutura de votação do FMI. O Brasil está preparado para pagar uma cota maior para ter uma cota maior nas decisões do FMI", disse ele. Perguntado, o ministro se recusou a dar mais detalhes: "aí já é um terreno que não é meu", disse, convidando os jornalistas a se dirigirem ao ministro da Fazenda, Guido Mantega. "Não quero me antecipar ao ministro."

Amorim também destacou que o País vai defender o aumento do crédito para o comércio internacional. "Queremos dar ênfase maior ao crédito para o comércio internacional, sobretudo para países em desenvolvimento", afirmou, acrescentando que o ideal seria que o Banco Mundial pudesse ter uma linha para crédito e comércio em países em desenvolvimento.

"Pode ser até na forma de garantias. Muitas vezes uma operação deixa de ser realizada porque a garantia que um país mais pobre pode oferecer - não é o caso do Brasil - às vezes é insuficiente, ainda mais agora, com a queda no preço das commodities. O Banco Mundial deveria ser mais ativo nesta área."

O ministro das relações Exteriores disse ainda que as regras do capitalismo estão sendo mudadas mesmo que os principais atores refutem este rótulo. "O capitalismo está sendo refundado, inclusive por aqueles que dizem que não se deve refundar. Quando você estatiza os bancos, ou quando você passa a ter um controle de 40% sobre o capital dos bancos, você está refundando o capitalismo", afirmou o ministro brasileiro.

Amorim afirmou que este assunto não entrou, precisamente, na pauta de discussões durante o encontro com Sarkozy, que anteriormente já havia defendido este conceito. Mas o chanceler entende que, de certa forma, o tema está implícito no debate, uma vez que franceses em brasileiros concordam sobre a necessidade de haver mais supervisão dos mercados.

"O que nós discutimos não foi uma refundação do capitalismo. O que nós discutimos é uma refundação da ordem mundial, que implica, em certa medida, um maior controle num capitalismo totalmente desenfreado que houve nos últimos 20 ou 30 anos. Quando Keynes fez sugestões, ele também fez, de certa forma, uma refundação do capitalismo, sem necessariamente dizer ou querer dizer que estava fazendo isso", analisou o ministro.

"A idéia principalmente é nós trabalharmos juntos para termos estruturas que sejam mais capazes de fazer face aos problemas que nós temos", completou Amorim.

O ministro voltou a pedir o fim das medidas protecionistas que diversos países europeus, além dos Estados Unidos, começam a adotar para de defender contra os efeitos da crise econômica. No encontro com a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, ocorrido na última quarta-feira em Washington, o ministro já havia solicitado prudência sobre as práticas.

"Nós somos contra o protecionismo em geral. Temos dito em várias ocasiões, e tive novamente a ocasião de repetir agora em Washington, que todos nós, nesta situação, estamos preocupados em garantir os nossos empregos, em preservar e se possível até aumentar os nossos empregos", afirmou. "O número de empregos que se pode gerar com o protecionismo é muito menor do que o que se gera com o comércio mais livre."

Amorim diz estar confiante sobre a conclusão da Rodada de Doha neste ano, no entanto as negociações poderão mais uma vez se manter emperradas se os países acentuarem as medidas protecionistas. "Tenho sempre dito que a Rodada de Doha é o melhor antídoto - talvez não seja o antídoto absoluto - contra o protecionismo. Só promessas e boas intenções não resolverão o problema do protecionismo."

Para ele, a Rodada Doha não vai salvar o mundo da crise. "É preciso muitas outras coisas. Mas ela vai apontar um caminho positivo. O necessário para o Brasil hoje, e para o mundo, é concluir a Rodada Doha. Conversei com a secretária de Estado, Hillary Clinton, e me permiti dizer a ela que precisamos de duas coisas: ser rápido e ser simples. Se alguém trouxer complicação, não podemos ficar na esperança de que os outros também não vão trazer complicação. E se os outros trouxerem complicação, são mais quatro anos nisso."

Sendo mais específicos sobre as relações com a França, Amorim se diz satisfeito sobre o quanto os dois países parecem estar em comum acordo em relação às novas necessidades de regulação do mercado, embora a França seja um dos países que tenham demonstrado mais tendência ao protecionismo neste momento.

"Este não era o momento de ficarmos discutindo sobre detalhes de como estão sendo elaborados os planos econômicos. De um modo geral, no que diz respeito às questões mais estruturais da reforma internacional, Brasil e França têm uma visão comum: a necessidade de supervisão dos bancos, a necessidade de uma mudança também nas estruturas de governança na área financeira", argumentou o ministro.

"É por isso, também, que nós temos de fortalecer a OMC, que é o órgão onde estes assuntos são discutidos e resolvidos. Eu não vejo diferença filosófica entre Brasil e França, mas entre uma medida ou outra pode haver alguma diferença que será esclarecida com o tempo."

Sobre as expectativas em relação ao G20, em Londres, Amorim disse esperar um entendimento mais uniforme sobre as necessidades de mudanças no mercado e no âmbito das lideranças. "Espero que possamos avançar nessa questão dos bancos e dos capitais, dos hedge funds, que haja uma visão que evite essa ação desenfreada, responsável por essa crise que nós temos hoje. Isso só pode ser feito de maneira cooperativa entre os governos, com participação de todos os países que contam", avaliou.

"Eu acho que se você quer tomar decisões de caráter global, o G8 não é mais suficiente. Ele não tem meios, não tem instrumentos, e ele mesmo reconhece. Não somos nós que queremos isso: é um fato da vida, hoje. Eu acho que só não vê quem não quer."

» Confira mais notícias sobre Economia

Fonte: Invertia Invertia
publicidade