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Desemprego de 20% dos jovens será um problema por 40 anos

Economistas dizem que pessoas que enfrentam dificuldades atuais para entrar no mercado tendem a ser consideradas defasadas no futuro

16 mar 2016 10h32
| atualizado às 11h07
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Mais sensíveis aos efeitos dos ciclos econômicos no emprego, os jovens sentem o golpe da recessão no mercado de trabalho. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que a taxa de desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos atingiu 19,4% no fim de 2015, enquanto a média nacional ficou em 9%.

Taxa de desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos atingiu 19,4% no fim de 2015, enquanto a média nacional ficou em 9%.
Taxa de desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos atingiu 19,4% no fim de 2015, enquanto a média nacional ficou em 9%.
Foto: O Financista

Com o aprofundamento da recessão, esse quadro deve se deteriorar ainda mais e um em cada quatro jovens estará em busca de emprego até o fim deste ano, segundo a 4E Consultoria. Pior: os impactos negativos de uma geração perdida serão sentidos por pelo menos 40 anos. Ou seja, toda a vida profissional dessa faixa etária estará comprometida.

“De forma geral, o desemprego de jovens responde mais rapidamente a momentos de crise. Em países como Itália, Grécia e Espanha essa taxa chegou a superar 50%”, afirma o economista Thiago Curado, sócio da 4E Consultoria.

São duas as principais razões que explicam o ritmo acelerado no desemprego entre os jovens. O primeiro deles é que as pessoas com menos experiência e menor tempo nas empresas costumam ser os primeiros demitidos quando cortes são necessários.

O segundo motivo ganha ainda maior relevância na atual situação da economia nacional: quanto maior a crise, mais jovens precisam sair em busca de trabalho. Se durante a bonança econômica uma parcela dessa população pode se dedicar exclusivamente aos estudos, hoje precisam deixar universidades e cursos técnicos de lado ou, pelo menos, tentar conciliar trabalho com estudo. 

“Nos últimos anos os jovens postergaram a entrada no mercado de trabalho para agregar anos de estudo. Com a queda na renda real, as famílias pressionam para que os jovens parem de estudar ou concomitantemente comecem a procurar emprego”, diz Curado. “É um fenômeno que acontece em toda crise”, acrescenta.

No quarto trimestre de 2015 o rendimento médio real recuou 2% na comparação com igual período de 2014 e a massa salarial caiu 2,4% na mesma base de comparação, no maior recuo da série histórica, segundo dados da Pnad Contínua. A perspectiva é de novas quedas ao longo de 2016.

Aumento no desemprego de comércio e serviços ajuda a explicar o maior desemprego entre os jovens
Aumento no desemprego de comércio e serviços ajuda a explicar o maior desemprego entre os jovens
Foto: Thinkstock)

Além dos prejuízos para cada indivíduo, o País também perde com menos tempo dedicado aos estudos. “Os jovens que estão entrando no mercado de trabalho estão deixando de estudar, quer estejam abandonando ou deixando de dedicar exclusivamente. Em qualquer uma das situações, isso reduz nível de educação, o que significará menor produtividade e menor crescimento potencial”, afirma Curado.

Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados, observa que é comum a taxa de desemprego entre os jovens superar a média nacional, mesmo quando não há crise devido às menores qualificação e experiência próprias da idade, mas observa que a deterioração do mercado de trabalho está maior entre os mais novos.

“O aumento no desemprego de comércio e serviços ajuda a explicar o maior desemprego entre os jovens. Como a renda familiar está começando a cair, mais pessoas dessa faixa etária está entrando de forma antecipada no mercado de trabalho”, pondera Zara.

O dilema do primeiro emprego

É comum que o primeiro emprego dos jovens esteja ligado aos setores de comércio e serviços, justamente aqueles em que a recessão começa a ter maior impacto a partir deste ano. Dessa forma, a perspectiva é de piora no índice de desemprego nessa faixa etária em 2016.

Segundo Curado, da 4E Consultoria, a taxa de desemprego entre jovens deve saltar mais de 5 pontos percentuais e alcançar 25% no fim de 2016.

“Em 2015 a maior parte das demissões aconteceu na indústria, que demitiu 600 mil pessoas. O comércio e os serviços demitiram 250 mil cada um. O jovem tem maior inserção no comércio e nos serviços e a demissão nesses setores ainda não chegou ao fundo do poço”, avalia Everton Carneiro, analista econômico da RC Consultores.

Com a perspectiva de que o mercado de trabalho no comércio e em serviços se deteriore ainda mais, como efeito da maior inflação e queda na renda real, o ritmo de demissões de jovens deve aumentar.

“Atualmente são 27 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor de comércio e serviços, áreas que contratam muitos jovens. Isso significa que pode haver um descolamento ainda maior entre a taxa de desemprego média e dessa parte da população”, observa Carneiro. Atualmente, essa diferença é de pouco mais de 10 pontos.

40 anos perdidos

Os economistas chamam a população atual que tem entre 18 e 24 anos de geração perdida, porque os danos dos impactos da crise devem se estender por toda a vida profissional desses jovens, um período que pode durar até mais de 40 anos, segundo Thiago Curado, da 4E Consultoria.

Economistas chamam a população atual que tem entre 18 e 24 anos de geração perdida, porque os danos dos impactos da crise devem se estender por toda a vida profissional
Economistas chamam a população atual que tem entre 18 e 24 anos de geração perdida, porque os danos dos impactos da crise devem se estender por toda a vida profissional
Foto: Marcos Santos/USP Imagens/Fotos Públicas / Divulgação

Isso porque mesmo quando a economia voltar a crescer e a oferta de empregos aumentar, quem enfrenta as dificuldades atuais para entrar no mercado de trabalho tende a ser considerado defasado para as vagas futuras e ficar em desvantagem na disputa por um posto de trabalho.

Sergio Sabino, diretor-geral da TMP Worldwide Brasil, empresa de marketing de recrutamento, explica que, apesar do rótulo de mão de obra de baixo custo, o trabalhador inexperiente exige investimento em treinamentos por cerca de um ano por parte das empresas, o que diminui o interesse do empregador pelos jovens atualmente.

“O jovem não devolve nada para a empresa no primeiro ano e isso dificulta na hora da contratação”, diz. A falta de experiência deve pesar ainda mais para quem não conseguiu uma colocação neste período de recessão. “Essa geração vai sofrer um pouco mais. Quem se formar em 2018, 2019 em diante possivelmente terá menos dificuldades. Alguns [jovens que estão desempregados hoje] vão se recolocar, mas a oferta de gente será muito maior que a demanda por um bom tempo.”

Everton Carneiro, da RC Consultores, considera que a população que tem hoje entre 18 e 24 anos terá um “buraco em sua experiência profissional” que dificultará sua inserção no mercado de trabalho quando a economia melhorar.

“Daqui alguns anos é possível termos uma série de jovens com boa formação universitária, mas sem nenhuma experiência”, diz.

 

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